O Brasil não conhece o Brasil

O Brasil não conhece o Brasil

A Serra da Canastra é um lugar de grandes paisagens, suas serras, que lembram um baú, se pronunciam longamente no horizonte, sua vegetação mescla os campos de altitudes, com resquícios de mata atlântica e cerrado. Grandes vales criado pela ação continua dos ventos e dos rios criam um cenário cheio de cachoeiras e paredes de pedra. As serras serviam para o gado que se alimentava de seu capim nativo e alimentava também a esperança de alguns com o sonho da riqueza dos diamantes dali.  A dificuldade de acesso fez com que seu povo buscasse a auto suficiência. Só o sal vinha de fora.  Do gado o leite e a carne, do leite o queijo e a manteiga, do soro do queijo o alimento do porco. Da mandioca a farinha e o polvilho. Dos campos o arroz, o feijão, o milho e tudo mais que compunha a mesa. Tudo se aproveitava. Esta forma de ser se manteve.

O Aldir Blanca cantava que o Brasil não conhece o Brasil, o que valia naquele tempo ainda vale hoje. É muito mais comum encontrar no meio da floresta ou em uma serra no cerrado um grupo de alemães curiosos, japoneses com seus bonés, óculos e luvas que brasileiros se deliciando com a diversidade e riqueza existente nos seus mais de 8 milhões de KM².O serrado é um destes lugares, deixado um pouco de lado, com sua beleza menos óbvia e delicada, seus rios e árvores tortas que foram se contorcendo entre as pedras e resistindo aos incêndios. Viajando de São Paulo para o oeste do Brasil, deixamos para traz as grandes cidades, a mata atlântica, um povo apressado e um jeito pragmático de ser e vamos encontrando estradas menores, um horizonte amplo e um povo desconfiado mas acolhedor. Um dos lugares em que o asfalto some e que anuncia o começo do serrado é a Serra da Canastra, em Minas Gerais. Um monumento natural, preservado pela geografia dos avanços do progresso. Um lugar que até a muito pouco tempo usava o carro de boi para ir e vir em estradas calçadas com grandes blocos de pedra.

As características do solo e do clima da região fizeram com que o queijo da serra da canastra ganhasse conotações únicas de sabor e textura, sendo hoje simbolo de uma região e de uma luta pela defesa da produção artesanal de alimentos. Um conjunto de ações foram feitas no sentido de garantir a todo brasileiro seu direito de acesso ao queijo artesanal. O IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Brasileiro) reconheceu o processo de produção do queijo mineiro como  parte do patrimônio histórico imaterial brasileiro. No esteio desta ação a legislação fito sanitária começou a ser revista e hoje já é possível a circulação livre do queijo pelo país.

Em meio as estradas empoeiradas encontram-se diversas famílias de produtores discretos mas muito orgulhosos do seu trabalho. Produtores que batizam com seu nome o queijo. Cada um com um gosto e uma textura distinta do outro, Onésio, Zé Mário, Capim Canastra. A cada visita uma história, um pouco de café, pão de queijo e tempo, muito tempo para o outro. Nestas conversas se descobrem receitas, segredos que ameaçam desaparecer com o passar das gerações. A Serra da Canastra vem se preparando discretamente para o turismo. Mas estas mesmas dificuldades fazem de uma visita a serra uma experiência ainda mais ampla, de desapego e de busca de uma forma harmoniosa de ser. Infos de viagem: goute@goute.com.br

 

Colunista:
Dani Hispagnol
danihispagnol@goute.com.br
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